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Dec. 1st, 2008

NÉVOA

Do lado de dentro dos seus olhos
Para fora a pretensa visão
E entre seus olhos e tudo
Além da pretensa visão
A névoa...

Como um véu a encobrir as coisas
Preservando segredos
Prejudicando toda nitidez
E gerando incertezas
A névoa...

Entre o que você vive
E o que você sonha
A névoa


Apr. 8th, 2008

BRANCO

De repente nada pintado, pintando...

Cores esquecidas e cenas de tantas vidas

Tela em branco de minha imaginação

Todo branco o quadro de meus esquecimentos

Pensamentos vazios linhas tortas

Desejos vadios de coragens mortas

Meus medos não são azuis

Nem são vermelhas minhas dores

Minha preguiça não é amarela

Nem é negra minha solidão na tela do viver

Tampouco escura é toda essa saudade

Nunca pintei de preto minha tristeza

A cor dessa melancolia é o branco

Tudo branco nesse branco que me dá

De nem saber onde tudo começou

Brancura disso em que tudo vai dar

Branco como o nada e o vazio

E como o silêncio que eu devia fazer

Apr. 7th, 2008

AZUL

Ondas de um mar imenso minhas velas rasgadas

Toda vez eu penso meu horizonte tão perto de nada

O que me mata são essas paredes que me sufocam

O que me faz insistir são as janelas e as portas

E todos os buracos da minha imaginação

Por onde entrar alguma luz, qualquer luz

O que me atormenta são todas essas distâncias

Essa inconstância de querer estar vivendo vida

Algo como num porto tão distante

De uma ilha desconhecida

Meus olhos que conhecem os ventos

Meus pensamentos enfunando velas rasgadas

Meu barco da vida rumando a horizontes

Tão distantes de tudo e tão perto de nada

 

VERMELHO

Em um sonho eu andava vestido, mas descalço

Sapatos largados pelo caminho, água nos pés

Pensei de súbito um poema vermelho: batom, vinho e sangue

O vinho que me corre pelas veias

Batom em todas as taças. E sangue na boca

Com esmalte vermelho nas unhas compridas

Ela rasga-me a pele impiedosamente

E me bebe como um vinho quente

O sangue frio escapando pelas veias

Marcas de batom em todas as saudades

Em todas as cidades um pôr-do-sol, vermelho

Em meu espelho uma mancha antiga de vinho

Minha tristeza é feita de sangue nos olhos

E pedra nos sapatos que largo pelos cantos

Saudade de um gosto vermelho de batom

Tantos prantos em garrafas vazias de vinho

Pensamentos embriagados de eu estar vestido

Mas descalça a alma alada voando livre

Para um vermelho de um outro pôr-do-sol

Teu batom, tua boca, tua taça

Teu sangue em minhas veias

Um teu vermelho meu

Sonho de um pôr-do-sol...

Oct. 24th, 2007

É ASSIM

É assim

Um dia faz sol

Mas você está triste

Então chove noutro dia

Mas você não está alegre

Um grito no escuro

E ninguém pode ouvir

Outro grito

No centro da cidade

Na hora do almoço

E pensam que é louco

Coitado do moço

Os olhares a não olhar

Você que passa

Assim tão depressa

Pensando em tudo que...

Afinal de contas passa

Tão depressa

Você acorda

Bem no meio

Da madrugada

Sonhou bicho feio

Qual nada

Sonhou a vida

Outra vida

Tão bela

Que não vem

E tanta coisa

Tão bela

Que você não tem

E você pensa

Pensa então sou quem?

Acha que é ninguém

 

É assim

Tantas palavras

E coisas das palavras

Palavras e coisas

Poemas, versos, poesia

É assim melhor

Ficar calado

As pessoas passam

De mãos dadas

Suas mãos vazias

Nas noites frias

Tantos beijos

Não dados

E abraços

Desperdiçados

Por aí nas esquinas

Nas alcovas

Na solidão do quarto

Desprovido

De coisas novas

 

É assim

Que você silencia

Nessa outra noite fria

E só se esquenta

Pulando a torto

E a direito

Com nada feito

Entristece

Tanta gente

Que te esquece

Te esquece tudo

O endereço

A cara e o nome

A sede e a fome

Te esquece sim

Assim mesmo assim

Sem lembrar você

Nem o telefone

Nem aqueles momentos

Tão sublimes

Que foram tudo

Que se foram

Assim

Sem mais nem menos

Porque tudo assim é...

Quando tudo é assim

Aug. 9th, 2007

LONGE DEMAIS

De volta ao silêncio absoluto
Pavor das alturas

Horror às distâncias

Tão distante cada palavra

Um grito nas alturas

Vazio silencioso

Meus abismos e passos

Meus sonhos imorais

Meu sono perdido

Madrugadas imortais

Olhar perdido e escuridão

Minhas estrelas mortas

Minhas dores postas

Feridas abertas

Fechadas portas

Lágrimas por nada mais

Meus caminhos ermos

Pés sobre folhas mortas

Eu não sonho mais

 

Parasse a vida, agora

Cessassem os pensamentos

Meus tolos sentimentos

Minhas ilusões passáveis

Meus consoláveis tormentos

Restaria apenas esvaziar

Um eu de sombras colossais

Minha hora mais absurda

Entre escombros dos umbrais

Passasse tudo agora

Todo o eterno tempo

E tudo para nunca mais

 

Para onde eu iria?

Lugar algum é longe demais

Aug. 6th, 2007

COISAS ESTRANHAS

Eis-me aqui, de novo
Sonhos estranhos
Com coisas estranhas
Nada tão leve que não pese
Nas entranhas

Todo silêncio é mudo
Toda solidão é solitária
Toda escuridão é escura
Toda distância é distante
Toda saudade dói
E tudo é tão estranho

Roçar o chão
Nenhum vôo
Rastejo
E num lampejo
Nunca sei onde vou

Eis-me aqui
Devorando papel em folhas
Quebrando o dedo em teclas
Cuspindo palavras malditas
À mercê dos pensamentos
Essa estúpida e ideal
Visão do mundo
E de todas as suas coisas

Coisas estranhas
Amar
Saudade
E distâncias
E mais estranho
A absurda e injustificável
Espera

Jul. 12th, 2007

O QUE IMPORTA?

O apartamento
Uma porta

O lado de dentro

E o de fora

Em mim

Quantas portas

O que importa?

De que lado fico

O de dentro

Ou o de fora?

 

O mundo

Só distâncias

Nada perto

Tudo longe

Que importa?

De que lado fico

O lado de ficar

Ou o de ir embora?

May. 23rd, 2007

MAIS UM PEDAÇO

Que foi aquilo?

Saiu e eu escrevi

Pensei? Não sei

Poemas intrusos

Vêm do parque

Da luz da lua

Vêm sempre tarde

De lá da rua

Caem com a garoa

Escondem-se do frio

Em mim

Vêm sempre assim

 

E o que faço?

Eu me desfaço

Em palavras

Pedaço por pedaço

E me espalho

Pelo chão com as folhas

Para voar ao vento

É o que escolho

Entre tantas escolhas

Dar tudo de mim

Cada vez um pedaço

May. 18th, 2007

INVENTANDO COISAS

Morre aos poucos

O poeta, o artista

E o que os mata

Paradoxalmente

É o que os faz viver

Incertezas do futuro

Passo certo não dado

Certamente um caminho

Ainda não trilhado

O peso da vida

Traduzido em presente

Futuro e passado

E sentido como rotina

Que massacra devagar

Cada mísero instante

Em que tudo dá no mesmo

Viver ou sentir que vive

Caminhar a esmo

E saber que sobrevive

 

Tudo para quê?

Para ser, para ter

Para fazer, para poder

E para se iludir

Com o que inventamos

E chamamos viver

Para crer que somos

Mais do que somos

Para crer que temos

Motivos para sonhar

Para crer que podemos

Continuar a inventar
Porque tudo o que somos
É tudo o que inventamos

 

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